22/01/2020 às 14h50min - Atualizada em 22/01/2020 às 14h50min

Acusado de matar adolescente em colégio diz durante júri que cometeu o crime por ‘tristeza e ódio’

Raphaella Novisk Roman, de 16 anos, foi morta com vários tiros, em 2017, em Alexânia. Segundo a investigação, ela não quis namorar o réu, o que o revoltou.

O jovem acusado de matar a estudante Raphaella Novisk Roman, de 16 anos, dentro de uma escola em Alexânia, no Entorno do Distrito Federal, é julgado nesta quarta-feira (22). Durante o júri popular, Misael Pereira Olair, de 22 anos, disse que cometeu o crime em 2017 porque sentia ‘tristeza e ódio’ da adolescente. As investigações mostraram que ela não queria namorá-lo.
“Fiz por tristeza e ódio. Ódio da minha vida e ódio da Raphaella”, disse.
O assassinato aconteceu no dia 6 de novembro, no Colégio Estadual 13 de Maio. Segundo o processo, Misael, que era ex-aluno da unidade, estava usando uma máscara, pulou o muro, invadiu a sala e deu 11 tiros na adolescente. Imagens do circuito interno de segurança mostram os alunos fugindo em pânico após os disparos. Misael foi preso no mesmo dia.
O réu responde por homicídio qualificado por motivo torpe, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e por razões da condição do sexo feminino (feminicídio).
Ao ser interrogado, Misael se negou a responder perguntas feitas pelo juiz Fernando Augusto Chacha de Rezende, que preside a sessão, pelos responsáveis pela acusação e também pelos jurados. Ele atendeu apenas aos questionamentos feitos pelos advogados de defesa.

Misael confessou que largou a escola porque já pensava em cometer o crime. “Em 2016, foi porque eu já estava sabendo que eu ia cometer o crime. E em 2017, foi porque eu já estava perto de cometer”, disse. Réu escutava vozes

O réu disse ainda que começou a escutar a voz de uma mulher chamada Lilith - uma figura demoníaca da mitologia - dois ou três anos antes do crime. Ao ser questionado se sabia o que estava fazendo no momento do crime, ele disse que sim e negou que tenha sido ordenado pela voz que ouvia.
O réu disse que nunca comentou com alguém que escutava essas vozes nem procurou atendimento médico. Por fim, disse que se arrepende do crime e que, se pudesse, faria diferente. Entretanto, ao ser questionado se queria falar algo para sua família ou para os parentes da vítima, disse que “não é o momento”.
G1 não conseguiu falar com a advogada de defesa do réu antes do início do júri popular.

Testemunhas

Entre as pessoas que prestaram depoimento estava o homem que intermediou a venda da arma para Misael. José Alberto Moreira dos Santos disse que era vizinho do réu e foi perguntado se ele sabia de alguém que tinha uma arma para vender.
Ao comentar o fato, um homem que trabalha na mesma fazenda da testemunha disse que tinha um revólver para vender. Ele passou o contato de Misael para que os dois negociassem a venda.
“Um dia depois o rapaz que trabalhava comigo me entregou a arma e as munições dentro de uma meia e, quando eu voltei para casa, entreguei para o Misael”, disse. Ao ser questionado se tinha recebido alguma vantagem pela negociação, disse que ganhou R$ 300.
O policial militar Givaldo Luiz de Lima, que fez a prisão de Misael no dia do crime, disse que estava a caminho da escola quando viu o réu usando máscara dentro de um carro. “Eu o vi guardando a arma na mochila e mandei que ele saísse. Quando eu fiz a prisão, ele confessou que tinha matado alguém na escola. Ele não estava nervoso ou agressivo, ficou mais calado durante a prisão”, contou.
Entre as outras testemunhas estavam familiares de Misael, Raphaella e também a professora que estava em sala no dia do crime. Todos disseram que, apesar de muito calado e quieto, ele apresentava um comportamento normal.
“Sempre foi um bom filho para mim. Fiquei fora de mim no dia, quando soube do caso”, disse a mãe do réu, Maria da Conceição Pereira da Costa.
A irmã de Misael, Sônia Pereira de Oliveira, disse em depoimento que toda família foi pega de surpresa e chegou a duvidar que o irmão fosse o autor do crime. Ela conta que, assim como o réu, é reservada, mas não suspeitava que o réu pudesse matar alguém.
“Só nos últimos meses que ele parecia mais fechado, como se tivesse uma depressão”, disse.
Pedido de punição
A mãe de Raphaella espera que o réu seja condenado.
“Quero a pena máxima. Se ele ficar solto, pode fazer isso com outras Raphaellas. Não vai trazer conforto porque minha filha não vai voltar, mas traz um alívio por ele não estar mais nas ruas”, disse Rosângela Cristina Afonso da Silva.
Ela contou ainda que, mesmo dois anos após o crime, o sentimento de dor não diminui. “Foi como se fosse ontem, a dor não passa, foi uma barbaridade muito grande. O quarto dela está igual até hoje, com as roupas, tudo guardadinho. E vai continuar assim, para sempre”, completou.
A delegada Rafaela Azzi, que investigou o caso, disse à época que Misael planejou o crime durante um ano. Durante esse tempo, ele juntou R$ 2,3 mil para comprar o revolver e as munições. O promotor Jean Cleber Cassiano Zamperlini disse que não há dúvidas sobre a autoria do crime e nem como o assassinato aconteceu. O responsável pela acusação ressaltou ainda que o réu confessou o crime.
“O que será debatido é se ele tinha ou não alguma perturbação mental. Um laudo do Tribunal de Justiça apontou que ele é semi-imputavel. Mas a gente discorda um pouco, pois a pessoa que planejou durante meses o crime, com uma determinação grande, nos deixa na dúvida se ele estava com capacidade mental afetada”, disse.

Suposto comparsa

Durante as investigações, a Polícia Civil prendeu o comerciante Davi José de Sousa, de 51 anos, suspeito de ter levado Misael até a escola e, depois, ajudado na fuga.
Davi chegou a ser indiciado pela polícia. Ele deixou o presídio um mês depois da detenção, após uma decisão judicial. A Justiça decidiu por não mandá-lo a julgamento por considerar os "indícios da autoria duvidosos, incertos, frágeis, inconsistentes e superficiais".


Fonte: G1Goiás
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