28/11/2019 às 14h14min - Atualizada em 28/11/2019 às 14h14min

Andarilha por quase 20 anos se torna escritora e poetisa premiada: 'Uma vitória'

Após anos vivendo nas ruas, Luzia Florêncio conseguiu se estabelecer em Itumbiara. Ela aprendeu a ler e a escrever em cinco meses, quando morou de favor com uma jovem.

A escritora e poetisa Luzia Santos Florêncio, de 79 anos, recebeu o primeiro prêmio da Academia de Letras de Itumbiara, região sul de Goiás, na última sexta-feira (22). Para a idosa, que viveu como andarilha por 19 anos até se estabelecer na cidade, o troféu é especial porque celebra uma das suas maiores vitórias: aprender a ler e escrever.
“Nós vivíamos daqui para ali. Às vezes minha mãe arrumava um emprego, mas nunca ficávamos muito tempo em um lugar. Desde criança eu me lembro que via letreiros, latas com umas letras grandes e tinha uma agonia muito grande porque eu queria saber o que significava. Eu precisava encontrar um caminho para aprender a ler e escrever”, contou.
Luzia disse que sofreu muito quando viveu nas ruas, pois passou fome e teve várias doenças. A escritora conta que a mãe teve 15 filhos, mas seis morreram “à mingua”, por causa da situação precária da família.
Ela afirma que muitas vezes pedia para morar de favor em alguns lugares, mas também nem sempre conseguia ficar. “Às vezes mamãe não deixava. Eu dei muita sorte, porque eu morei em casa de gente muito pobre, mas sempre muito boa”, recordou.
Aos 9 anos, em uma cidade do interior de Minas Gerais, ela encontrou uma jovem de 16 anos recém-casada que aceitou recebê-la em casa de favor. Ao saber que o maior desejo de Luzia era aprender a ler e a escrever, essa mulher não mediu esforços para ajudar.
“Ela dedicava muitas horas para me ensinar. Tinha uma lousa pequena em cima da mesa e eu fui desenvolvendo. Ela via que eu queria aprender, então me ensinou história e a decorar texto. Ela me elogiava muito e aquilo me dava muita força”, disse.
Após cinco meses, Luzia precisou sair da casa dessa moça e voltou a perambular com a família, mas se esforçava para não esquecer nada do que aprendeu e continuou praticando como podia.
“Eu escrevia na areia, no ar. Quando passavam pessoas indo para a cidade eu pedia um caderno. E foi assim, nessa dificuldade, porque tinha medo de esquecer”, disse.
Após mais dez anos mudando-se daqui para ali, a escritora conseguiu se estabelecer em Itumbiara. Aos 19 anos, ela começou a se aproximar das pessoas da cidade e se casou.
“Eu amo Itumbiara, o povo de Itumbiara. Eu os considero meu povo, meus conterrâneos. [...] Vivi muita pobreza, muita dificuldade, mas tinha amigos, tinha a igreja, era uma sustentação maior para tudo que a gente enfrentava. Esse barraco em que moro hoje eu só fui ter com 50 anos”, pontuou.
Na mesma época em que conseguiu comprar a casa, Luzia também escreveu e lançou seu primeiro livro, a autobiografia “Mesmo assim eu sou feliz”.
“Felicidade verdadeira não é a que acontece diante de grandes vitórias, uma vida num mar de rosas. Não é. Felicidade é o que vamos conseguindo superar no dia a dia”, ensinou.
Essa foi a obra premiada na última sexta-feira pela Academia Itumbiarense de Letras. Luzia tem ainda outros livros, textos e poesias – muitos ainda não publicados porque precisariam de doações para que isto ocorresse.
Aos quase 80 anos, ela faz questão de não parar. “Eu ainda escrevo todos os dias. Mesmo que seja um pouquinho. É uma vitória muito grande para mim”, afirmou.
Mesmo após tantos registros, ela ainda vê muita história para contar.
“Eu criei 11 filhos - sendo que quatro são do coração -, mesmo em toda essa pobreza. Quase todos conseguiram estudar, quem não conseguiu vive do trabalho honesto, então posso ficar uns anos para contar tudo o que eu já passei”, brincou.
 
Fonte: G1Goiás
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