07/06/2019 às 14h17min - Atualizada em 07/06/2019 às 14h17min

Seis meses após denúncia contra João de Deus, movimento na Casa Dom Inácio de Loyola cai 96%

João Teixeira de Faria está preso desde dezembro de 2018. Acusado de abusos sexuais, ele nega os crimes.

Passados seis meses da denúncia de abusos sexuais de João de Deus, a Casa Dom Inácio de Loyola, onde ele realizava os atendimentos espirituais, segue aberta. Porém, com números bem menos expressivos do que quando ele - atualmente preso - se fazia presente. Segundo voluntários da instituição, em dias de muito movimento, o local chegava a receber 4 mil pessoas por semana. Hoje, não passa de 150, sendo a maioria estrangeiros.
G1 visitou Abadiânia, no Entorno do DF, onde fica situada a Casa, na manhã desta sexta-feira (7). A entrada não foi permitida. No entanto, do lado de fora já são perceptíveis os reflexos da ausência de João de Deus. Nas quartas, quintas e sextas-feiras, quando ele atendia ali, havia sempre multidões. Agora, apenas um ou outro fiel, sempre de branco, chega para fazer suas orações.
Do outro lado da rua, onde ficavam cerca de 20 táxis, que saíam o tempo todo para fazer corridas, não há mais do que cinco, sem qualquer demanda. Isso sem contar o impacto no comércio, com pousadas e lojas se não fechando as portas, enxugando a quantidade de funcionários.
Os poucos que aceitam falar sobre João de Deus o defendem e classificam como falsas todas as acusações contra ele. O veem como um homem de bem, que conseguia, guiado por entidades espirituais, curar as mais diversas enfermidades, desde dores nas costas até câncer.
A denúncia contra João de Deus foi exibida no programa Conversa com Bial no dia 7 de dezembro de 2018. Na ocasião, a holandesa Zahira Lieneke Mous contou que foi abusada sexualmente por João de Deus.

Queda de movimento

Um voluntário há 20 anos da Casa, que prefere não se identificar, revela que a instituição segue aberta de domingo a domingo, recebendo os visitantes. Porém, ele relata que as denúncias e a prisão de João de Deus impactaram bastante em vários sentidos.
Não só a quantidade de pessoas que frequentam a casa, mas o número de funcionários fixos e até de voluntários caíram consideravelmente.
“Tínhamos 4 mil pessoas aqui por semana. Hoje não passa de 150. Eram 50 empregados fixos, de carteira assinada. Agora só tem 15. Voluntários, que chegou a ter 40, são no máximo 7 ou 8. A cidade girava em torno dele. Todo mundo foi afetado”, afirma.
O homem reclama que a cidade, que tem cerca de 19 mil habitantes, não se preparou para antecipadamente para lidar com a ausência de João de Deus.
“Aqui não tem outra geração de emprego. A cidade não se planejou para isso (prisão) ou qualquer outra coisa que acontecesse com ele. Ele é mortal. E não é assim, morre e coloca outra no lugar. A pessoa tem um dom”, pondera.
Aos 65 anos, o comerciante gaúcho vive em Abadiânia há duas décadas. Veio primeiro acompanhando um amigo doente e gostou tanto que retornou definitivamente com a família. Dono de uma pousada, também sentiu no bolso os efeitos da prisão de João de Deus: dos 15 quartos que possui, nenhum está ocupado.
Questionado sobre as denúncias conta João de deus, o voluntário sai em defesa de seu líder. Afirma que jamais presenciou qualquer atitude que o desabonasse.
“Acho que há muita falsidade nas denúncias dessas vítimas. Não tem nenhum cabimento, não tem razão. Nunca vi ou percebi nada de diferente. Para mim, ele é totalmente inocente”, afirma.

Estrangeiros defendem João de Deus

Do pouco movimento que ainda existe na Casa, cerca de 90% corresponde a pessoas estrangeiras, a maioria da Europa. Muitos já estiveram na cidade antes após terem notícias da atuação de João de Deus em seus países e retornaram seja para manter o tratamento, seja apenas pela esfera espiritual do lugar.
A belga Isabel de Brouwer já frequenta a casa há uma década, pelo menos três vezes por ano. Nas últimas duas, trouxe consigo a mãe, que sofre de câncer de intestino.
Ela conta que a mãe apresentou melhoras após os atendimentos e rasgou elogios a João de Deus, a quem não julga ser verdadeiras as denúncias.
“Acho que ele fez o bem para muitas pessoas. Já vi curar um amigo com câncer no cérebro. Ele é uma pessoa dedicada a fazer o bem. Nunca notei nada de diferente durante os atendimentos”, afirma.
A mexicana Lorena está em Abadiânia há mais de um mês. Já esteve outras vezes por conta de uma dor nas costas, já curada. Mesmo assim, faz sempre questão de voltar, principalmente por causa da aura da Casa e independente da presença de João de Deus.
“Para mim, o importante é conhecer a si mesmo sem tantas distrações. Venho pelo local, para ter a minha experiência” salienta.
Embora a grande maioria seja de pessoas de outros países, há fiéis brasileiros que também buscam cura e paz interior no local. O casal de aposentados paranaenses Gilson e Marlene Medeiros de Melo, de 78 e 74 anos, respectivamente um deles.
Ela sofre de mal de parkinson e há dois faz tratamento espiritual no local. Diz que já teve avanços até então não obtidos em consultas médicas convencionais e critica as denúncias contra João de Deus.
“Eu não acredito (nas denúncias). Para mim, é perseguição por causa de dinheiro. Hoje só se pensa nisso. Sempre vou vir aqui, que é um lugar de muita cura”, destaca.

Reflexos na economia

A menor mas ainda consistente presença de estrangeiros não está sendo capaz de salvar a economia da cidade após a prisão de João de Deus. O comércio, fomentado em boa parte pela presença e atuação dele, está em forte declínio.
A avenida que dá acesso à casa, quase sempre lotada até então, está praticamente deserta. Muitas das pousadas dos arredores fecharam e as que permanecem abertas tiveram de se adequar à nova realidade.
“Nós temos 66 quartos e só 12 estão ocupados, todos por estrangeiros. Antes estávamos sempre lotados, faltava quarto, mal cabia todo mundo. Nosso faturamento caiu cerca de 80%”, reclama Karla Patrícia de Brito, funcionária de uma pousada.
A falta de demanda ocasionou uma readequação no quadro de pessoal. Dos antigos 13 funcionários, sobraram apenas quatro.
Mas a situação ainda está pior para outros comerciantes. Dono de uma loja de souvenirs, Edmilson Francisco da Silva estava embalando suas mercadorias para entregar o ponto, onde estava há 3 anos, por não ganhar nem mais para pagar o aluguel.
“O movimento caiu 100% sem ele (João de Deus). Antes eu faturava 5 mil por semana. Hoje não ganho nem 1 mil por mês. E olha que o aluguel era 1,5 mil e caiu para 700. A gente sabe que ele era meio bravo, mas nunca pensávamos que poderia chegar a esse ponto”, opina.
Segundo a prefeitura, foram expedidos 69 alvarás de funcionamentos anuais para hotéis e pousadas em 2018. Neste ano apenas três renovaram e outros seis deram baixa e fecharam a empresa.

Retorno à presídio

Após permanecer 76 dias internado no Instituto Neurólogico de Goiânia, João de Deus retornou ao Núcleo de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, na tarde de quinta-feira (6).
A transferência foi determinada pela 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), durante análise de dois habeas corpus impetrados pela defesa. João de Deus estava internado para tratar um aneurisma no abdômen.
João de Deus foi preso no dia 16 de dezembro de 2018. No dia 22 de março deste ano, a Justiça autorizou que ele fosse transferido para o hospital, atendendo a pedido da defesa, que alegava risco à vida do cliente em razão do seu estado de saúde. Inicialmente, o período de internação era de 30 dias, mas foi prorrogado duas vezes pelo ministro Nefi Cordeiro, do STJ.
A defesa impetrou dois pedidos de habeas corpus. Eles foram analisados na terça-feira (4) pela Sexta Turma do STJ, que não acatou a solicitação dos advogados e determinou que João de Deus voltasse para o presídio.
No início da tarde desta quinta-feira, a juíza Rosângela Rodrigues, da Comarca de Abadiânia, assinou o despacho e encaminhou cópia do acórdão ao Núcleo de Custódia - onde João de Deus ficará preso. Logo depois, a escolta do Sistema Prisional buscou João de Deus no hospital.
Fonte:G1Goiás
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